Terça-feira, Dezembro 30

Fui

Tem sido um ano extraordinário. Ela, ela, ela, ela nas nossas vidas. Todos os dias, fogos de artifício de sentimentos, por causa dela e como consequência dela. Para o bem e, às vezes, para o mal - que é possível ser feliz e ter dias maus.
Tem sido um ano instável, ter um filho muda-nos a rota e pede-nos rotinas, mudamos a rota e ela tem alguns hábitos criados, por isso não nos temos saído mal.
Mas este blog, com o estilo e o título que tem, com o propósito para que foi criado, já não faz sentido para mim, já não me apetece continuar. O quem quer vai não irá comigo para 2009.

Foi muito bom conhecer pessoas através do blog - felizmente, há vida que não é de zeros e uns.
Se voltar, prometo que aviso.

Um bom 2009 para todas e todos.

Dora

Quarta-feira, Dezembro 24

Não aprecio

Não consigo evitar ficar deprimida no Natal, começa logo a seguir aos meus anos e estende-se até ao ano novo, é os carros todos a entupir a estrada, é toda a gente com sacos, é pressa para tudo e tempo para nada, é eu a trabalhar a correr muito porque mais ninguém da família trabalha porque só eu é que trabalho num sítio onde todos os dias do ano é preciso trabalhar, é eu cheia de sono porque há festa e jantares e eu tento escapulir-me mas não sou capaz de dizer que não a quem pede com jeitinho, é prendas, as prendas todas, que eu até compro com gosto e critério, mas ter ideias para as prendas todas da família toda é dose, é a minha mãe cheia de stress a acordar ao romper da manhã para fritar coisas na cozinha, vou para o trabalho a cheirar a fritos e tenho todas as manhãs de 24 que repetir que não gosto de rabanadas, ainda por cima a ter que receber a notícia que este ano se calhar não tenho bolinhos de bacalhau da minha avó porque a minha mãe se esqueceu de lhe levar bacalhau e o meu pequeno almoço de sande de bolinho com cevada do cafezeiro de dia 25é provavelmente o ponto alto da quadra. Meto-me no carro e stá um dia lindo de sol mas tudo me parece tão triste, as pessoas parecem-me sempre tristes no Natal, há cartazes do circo e eu desde pequena que acho o circo triste e sombrio, um sítio frio e as trapezistas no alto e parece que ninguém mais repara que estão cansadas e as meias de rede estão rotas, nunca mais levei o meu irmão ao circo, nunca mais fui ao circo, estremeço com o circo. Hoje, acordo cheia de sono porque me deitei tarde, a miúda voltou a pedir leite às cinco da manhã, esvazia grandes biberões de leite de noite, anda a comer como se não houvesse amanhã, a medrar gordinha e corada, os olhitos vivos, sempre a rir-se e eu tenho que a deixar ao colo do pai, de pijama, fofa e coradinha e venho por aí abaixo a ver as pessoas tristes nos carros, com um nó na garganta porque desde que a deixo ando sempre com um nó na garganta, às vezes maior outras vezes mais pequeno e chego ao trabalho e esta manhã estão cá todos, do mal o menos. Tenho uma quebra de tensão porque ando cansada e ainda tenho que ir comprar mais duas prendas antes de ir para casa, tenho tanto que fazer, o R. liga-me tantas vezes porque a minha mãe lhe azucrina a paciência e eu já deixei o saco da menina pronto, tudo pronto, mas eu percebo, a minha mãe como uma abelha em redor dele, levas papa, levas biberões, levas casaco, levas fraldas e ele ainda não aprendeu que os avós também se educam.
Depois a correr para casa acabar de embrulhar prendas e esperar que, como no ano passado, até me divirta mais ou menos, mas confesso, que esta semana passe ligeirinha e me levem as rabanadas da frente, mais o bolo-rei - este é que é bom, prova este que este é que é bom, prova as minhas rabanadas, as minhas ainda não provaste e eu sempre, todos os anos, obrigada mas não aprecio - mais o cheiro tenebroso do bacalhau cozido e as lágrimas, as saudades, os lugares deixados vazios e passarmos o Natal porque temos que passar, tem que se passar o Natal e se pudesse passava o Natal com ela ao colo, a embalá-la e depois de ela dormir embrulhava-me numa manta a ver séries da tv cabo, isso sim um Natal bem passado, sem a mesa de excessos de comida, mãe isso é imoral, dora és uma chata, e eu com este vazio cá dentro, deprimida sem saber muito bem porquê, há-de ser trauma de infância, mas tudo e todos me parecem mais tristes no Natal.É como as rabanadas, não são más, mas não aprecio.

Quarta-feira, Dezembro 17

Sunrise, sunrise

Uma pessoa dorme melhorzinho duas noites seguidas e o mundo já parece outro.
Hoje fui comprar luzes e bolinhas para o pinheiro - quem diria, uma filha faz-nos o coração derreter cumáçúcar. Estava eu há vinte minutos a escolher as luzinhas mais lindas e mais pefeitinhas, cheia de amor e carinho (será isto o tal espírito natalício?), quando uma mulher entra, carrancuda, abeira-se da prateleira, agarra com maus modos a primeira caixa de luzes que lhe aparece e afasta-se, trombuda.
Apeteceu-me dizer "ó mulher, é Natal!".

Estou perdida, estou perdida.
Na Páscoa, vou andar aí a desejar Feliz Ressurreição a toda a gente.

(E a propósito disto, a Pal até me deixou escrever lá no estabelecimento dela...)

Ide

A mania de perguntarem quando é que vem o bebé. A mania e a indiscrição, porque ninguém tem mesmo nada a ver com isso. A mania e a maneira como esperam uma justificação - porque os casais têm que explicar, como se alguém tivesse alguma coisa a ver com isso. E não descansam enquanto não vem um bebé.
O bebé chega e passado meia dúzia de meses: "Quando vem outro?".
A minha irmã que não tem filhos está agora sob vigilância cerrada. Coitada dela, que tem que aturar o que não deve. E nós, porque também nos perguntam: "E a tua irmã?".
Eu respondo com o máximo de diplomacia que consigo - a minha irmã tem a vida dela, ela lá sabe. Às vezes, se a conversa se propaga, eu afirmo que não ter filhos também está bem. Que tive uma filha porque me apeteceu ter nesta altura, se não me apetecesse era lá comigo.
Mas só me lembro da tia Lena.
- Ide pró caralho.
A nossa miúda já come com colher e bebe pelo copo, é quanto basta.
- Quando mandam vir outro? - o olhinho malandro, este "mandar vir" todos sabemos o que é, marotices, marotices.
E a mim só me lembra a tia Lena, mas não posso escrever mais asneiras porque o meu marido diz que eu digo asneiras no blog para me armar.

Domingo, Novembro 30

É dos portugueses

Sempre me enganei muito a ler o nome da courgette, embora seja um bocado óbvio que se lê jota. É raio do francês que me confunde e na última vez que as comprei lembrei-me da minha tia Lena.

A tia Lena era uma pessoa especial a quem duas tromboses levaram algum juízo deixando como compensação uma ironia acentuada. Para todos os efeitos, a tia Lena perdeu a noção das convenções sociais e passou a dizer o que lhe mandava a alma e a alma dela era toda riso e pragmatismo.
Morava com a família da irmã mais nova (os meus primos, homens grandes, choram como crianças quando se evoca a tia que os criou) e desde a doença que deixou, por exemplo, de aplicar ao cunhado uma respeitosa paciência. Se ele não lhe acudia, ela logo "Ó sua cavalgadura" e ele, brincalhão, "a minha Leninha trata-me muito bem".
O meu tio cavalgadura também é uma figura singular, mas fica para outra altura.
Um dos últimos convívios familiares onde a tia Lena ainda foi com alguma autonomia foi um aniversário do meu pai, festa de arromba com guitarradas e tudo. A malta estava nas cantorias e ela já tinha pedido, em vão, à sua cavalgadura para a levar a casa. Estando a cavalgadura já bem bebida e demasiado envolvida no baile, não lhe restou outra hipótese senão uma intervenção directa. Eu estava de máquina fotográfica, por isso temos fotos da tia Lena a erguer o dedo, o seu dedo curvado a sair destemido do braço agasalhado pelo xaile, a bengala no outro braço, a ameaçar os tocadores: "Ide pró caralho que eu quero ir dormir".
Sucede que a tia Lena tem outra irmã, emigrante no Brasil desde os vinte anos, que costumava passar cá todos os verões. No regresso, levava coisas portuguesas para os filhos e netos que nunca cá tinham posto os pés - atitude inteligente, não há na terra do meu pai nada que valha a pena um carioca conhecer. Ou melhor, havia até a tia Lena nos morrer.
Entre os petiscos, ia sempre uma das supremas iguarias do vale do Sousa - a cavaca. Sacos de cavacas colhidos na última festa, talvez o S. Sebastião, quiçá o S. Miguel, o povo faz um a seguir ao outro para ter uma festa contínua, eram a última coisa a juntar às malas.
Pois numa das últimas vezes, os emigrantes deram com o saco rafado - a tia Lena tinha ido às cavacas de noite. E a irmã chateou-se: "Ó Lena, então tu comeste as cavacas?".
Os sobrinhos, os netos no Rio de Janeiro, ougados pelas cavacas, e a tia Lena insensível: "O que está em Portugal é dos portugueses".

Na mercearia onde comprei os legumes, não muito longe da cozinha onde a tia Lena proferiu sabedoria, registam-me os verdes já com revisão ortográfica e eu fiz a sopa da cachopa com crujetes.
A tia Lena iria gostar das crujetes - as palavras que estão em Portugal são dos portugueses.

Sábado, Novembro 29

Regressão

Tenho umas sapatilhas Nike de bota, como a canalha. São leves e ando a saltitar nelas, contente, como a canalha. À noite, quando as tiro, cheiram a chulé, como as da canalha.

Sexta-feira, Novembro 28

Ontem fomos ao hospital de Santo António com ela fazer uma cintigrafia - coisa de rotina, para despistar lesões nos rins por causa da infecção urinária que teve aos dois meses. Voltei a passar pelos corredores onde já não estava há sete meses, corredores que percorri de cadeira de rodas, ansiosa e cheia de dores, para a ver pela primeira vez. Um nó na garganta: o medo, os medos, as memórias, as frustrações, o deslumbramento, tantas emoções intesas e emaranhadas em tão poucos dias. Entrar ali com ela, enorme, gordinha, saudável, toda a gente a comentar "que lindo bebé" e nós, babados, "nasceu aqui". As pessoas do Santo António são tão simpáticas e à primeira simpatia não segurei o nó na garganta. Subimos no elevador por onde eu desci a pensar que a minha bebé me ia morrer e por onde subi a sentir que eu própria tinha nascido outra vez.
A primeira vez que chorei no Santo António foi quando fui lá tirar um monte de células que se recusaram a evoluir para um filho na minha barriga.
A segunda foi quando ela teve que nascer muito depressa.
A terceira foi ontem, nem de alegria, nem de tristeza, mas de memórias abruptas.
Não me envergonho de dizer que o meu parto - que não foi aquilo que eu sonhava, apesar de ter sido muito bem acompanhada no hospital - continua por superar. É um momento demasiado forte na vida para que lhe apliquemos o pragmatismo de todos os dias - aquele que me levava a dizer, nas primeiras semanas, que ela nasceu bem, que tudo ficou bem e isso é que interessa.
É verdade que isso é que interessa, ela estar bem e feliz, nós estarmos bem por ela estar bem e feliz, sem mazelas da prematuridade. Mas aqueles momentos todos, aquelas emoções que chegaram aos limites em todas as direcções, da máxima angústia ao máximo amor, foram como uma tempestade eléctrica cá dentro.
Há coisas que me custaram tanto e que agora, só agora, começo a admiti-las a mim mesma para restaurar o equilíbrio. Por exemplo, só a ter visto no dia seguinte. Senti que esse momento me foi roubado. Consola-me saber que, por causa disso, o pai dela teve privilégios extra, como dar-lhe o primeiro leite, ser o primeiro a pegar nela, passar com ela as primeiras horas no mundo.
Isso consola-me mesmo muito, é a única coisa que me consola e me faz perdoar um bocado ao universo ter-me roubado o momento mais mágico de toda a minha vida.

Terça-feira, Novembro 25

Sonho noir

Tenho que contar o sonho que tive hoje, entre as sete e meia e as oito da manhã, a primeira a hora a que ele saiu de casa, a segunda a hora em que despertei com três gatos em cima de mim. É negro como o meu id literário que, tenho a certeza, um dia vai inundar a minha consciência de forma urgente e eu, por fim, começarei a escrever como o Hitchcock.

Estava com a minha família de visita a uma loja tipo Ikea, mas muito mais pequena, mesmo pequena, com pequenas divisões cheias de luz azulada e decoração futurista, passávamos de umas para as outras através de corredores estreitos em cor pastel e escadas com curvas, era moerno e bonito. A família onde eu estava não era a minha verdadeira família nem eu era eu, era apenas a consciência de mim dentro de outra mulher, mais nova que eu, com calças de ganga, sapatilhas e blusão e algo aborrecida com o programa familiar. Havia um bebé, mas não era a minha filha, e, nisto, eu zango-me com a minha mãe porque ela, na cafetaria da tal loja, reproduz indiscretamente em público um comentário que eu fizera e que era, obviamente, para manter na intimidade familiar.
Zangada, saio da loja e estou em Nova Iorque, isto é, naquilo que no sonho é Nova Iorque, mas que não é a cidade que eu conheço profusamente dos filmes. É uma cidade cheia de árvores, podia ser uma rua do Porto ali nos recantos do Campo Alegre, e estou numa avenida que reconheço de algum lado, onde há limoeiros a bordejar um ribeiro. Ocorre-me apanhar limões, para levar para Portugal e depois convidar a Inês a tomar um chá aromatizado com eles, no momento parace-me uma boa prenda de viagem, mas lembro-me que em Nova Iorque não é de bom tom colher limões das árvores da rua, ainda que aqueles estejam mesmo no ponto de serem colhidos.
Prossigo e estou numa avenida enorme, larga, com prédios altos do género que vi em Buenos Aires, e há uma manifestação de portugueses enfurecidos, que pedem aumentos salariais acima dos cinco por cento. Eles seguem na mesma direcção que eu, espanto-me com a concentração compacta de milhares de pessoas, desconhecia haver tantos portugueses em Nova Iorque e ainda para mais descontentes com os seus salários a ponto de criarem espalhafato. Fico espantada, mas não de forma avassaladora, é mais pela coincidência do que pelas circunstâncias da manifestação: eu sou portuguesa e misturo-me, por um puro acaso, com milhares de compatriotas numa cidade estrangeira.
À medida que avanço na avenida, o meu interesse desvia-se dos manifestantes, com os quais estou fisicamente envolvida, há constantes embarrares de braços e ombros, e centra-se nas pequenas ruas perpendiculares, mais concretamente numa rua sem saídas onde há lojas e numa delas um extraordinário sapato preto de salto alto.
De onde irrompe este fascínio pelo sapato não sei, não sou definitivamente apreciadora de saltos altos, mas há algo neste sapato que não me deixar tirar os olhos dele. Tem um design peculiar no salto, que é uma espécie de ponte em arco na vertical, sendo uma parte preta e o arco vermelho vivo, quese estende até ao calcanhar, onde desemboca num ostensivo laço vermelho. Ao reparar no laço, que não tinha visto no início - e assalta-me a sensação fantasmagórica de que o laço não estava mesmo lá no início - fico menos absorvida pelo sapato. Além disso, é caro e uma espreitadela nas outras lojas da rua, uma rua em paralelos, muito estreita, onde uma miúda loura e de ranho no nariz olha para mim desconfiada, levam-me a voltar à avenida da manifestação.
Lá, entretanto, a manifestação continua interminável e densa e ouço dizer no grupo de jornalistas do qual me acerco que nunca se viu semelhante "vagem humana". Fico a pensar na expressão "vagem humana", tentando lembrar-me se alguma vez a li em algum jornal, concluindo que não, é novidade absoluta - e fará sentido?
Passo por jornalistas cuja cara não me é estranha e uma delas aborda-me para em entrevistar, ao que respondo que, além de ser colega de profissão, não sou manifestante, embora portuguesa. Trocamos cumprimentos de reconhecimento porque a verdade é que já nos tínhamos encontrado em serviços, ali mesmo naquela avenida, e eu só me recordo agora que já lá tinha estado. Dirijo-me ao outro lado da avenida, onde alguém importante apareceu, uma mulher loura e gorducha, de cabelo seco e eriçado, corada e com um ar extremamente simpático e inteligente, para a qual vários jornalistas correm. Duas jornalistas de uma equipa de TV americana correm para ela também e uma delas é a Courtney Cox, o que me leva a pensar, pela primeira vez, que talvez esteja dentro de um filme, mas nãp - é mesmo verdade que tudo isto está a acontecer e o facto da Courtney Cox ali estar é uma coincidência que terá explicação.
Na ânsia de alcançar a mulher loura, que trocaram por outra entrevistada - deixando essa entrevistada, uma ruiva magrinha, perplexa e a meio de uma frase - uma tragédia acontece. De repente, um camião vermelho, enorme, pesado e sem as rodas do meio, o que o leva a arrastar a carroçaria pelo chão, vai a passar. Eu afasto-me dele a tempo, mas a Courtey Cox, que no meu sonho se chama Laura Hamilton, tropeça numa poça de água e fica sentada no chão e o camião passa-lhe por cima das pernas e estraçalha-as abaixo do joelho, numa imagem de total horror para quem assiste e para ela própria, que vê a sua carne desaparecer toda até ficarem apenas dois ossos debaixo das coxas.
Há um hiato súbito e depois um homem entra no quarto de hospital onde a Laura Hamilton recupera.

E os gatos sobem para cima das minhas costas.
E eu vou ver à net quem é a Laura Hamilton.
É uma loura do canal Nickelodeon.
Nem vou ler este post outra vez.

Internem-me, se for caso disso.
Pausa higiénica no trabalho para folhear blogs e cai-me isto direitinho no coração. Fico de olhos molhados e se calhar com algo mais porque a minha estagiária repara em mim e diz "Respira, respira". Disfarço e digo que foi uma tontura (o que não é de todo mentira, ando no limiar do esgotamento físico).

Ver o meu pai ser avô está a ser uma das coisas mais lindas que já me aconteceram na vida. E agora, pôrra, tenho que ir chorar um pedacinho na casa de banho para não perder a compostura.